Políticas sociais e a exploração sexual contra mulheres, crianças e adolescentes

29/05/2012 às 17:21:13

 

 

Reflexões, a partir de experiências de formação política, do Coletivo Leila Diniz sobre mulheres adultas, crianças e adolescentes e a relação às políticas sociais e a exploração sexual.

Iniciamos no ano de 2008 um processo de construção de uma forma nova de fazer política. Nossa idéia era trabalhar com prevenção da violência contra as mulheres, com adolescentes de grupos culturais, que participaram de um concurso, uma seleção, que incluiu como prêmio, um auxílio montagem, para a ação ganhadora e uma formação contracultural feminista na qual discutíamos Patriarcado, Feminismo, o poder simbólico da cultura, os padrões estéticos através dos tempos e Resistências contraculturais, sempre posicionando o feminismo como um lugar histórico e legitimo de resistência. A formação também comptemplava experiências corporais com a biodança e vivência teatral. Abrimos o Edital de seleção com a seguinte chamada: Constitui objeto do presente Edital o fomento a indignação, expressões de revolta, formas alternativas de resistência à sociedade patriarcal e propostas articuladoras de uma contracultura de resistência às diversas formas de violências sociais na cidade do Natal, no sentido de estimular a multiplicidade e a diversidade no uso de várias linguagens e em suas variadas modalidades de manifestação de resistência.

Essa formação desembocou em uma ação política/teatral de rua, dirigida pelo grupo Loucas de Pedra Lilás da cidade de Recife em parceria com o Fórum de Mulheres do Rio Grande do Norte, nas ruas do centro da cidade de Natal. Aquela ação teve impacto e reverberou para dentro da instituição um debate sobre a necessidade posta de conhecer melhor os grupos culturais e ter neles aliados políticos para construção de uma estética política de resistência que dialogasse com a juventude.

Paralela a formação com os grupos culturais, desenvolvemos uma formação com adolescentes na comunidade da África e na Vila de Ponta Negra, ambas as comunidades pobres, África muito mais e com muito menos acesso aos serviços básicos. Deparamos-nos com situações de apatia, não participação, gravidez na infância e no inicio da adolescência, com uma freqüência e uma normalidade que nos espantou, não havíamos nos preparado para lidar com situações como a necessidade de creches para garantir a participação das meninas, pois não tinham com quem deixar os filhos, o que nos intrigava e revoltava: elas já tinham filhos!. Nos nossos debates internos e com parceiros políticos da cidade, como o Conto Jovem, Casa Renascer e Centro de Cultura da Vila de Ponta Negra, víamos que essa realidade estava posta em todas as regiões na nossa cidade e do Brasil e já sentíamos que precisávamos agir conjuntamente e de forma mais problematizadora.

Para nós se iniciou aí um grande desafio que institucionalmente decidimos tratar como um desafio político e pedagógico de atualizar os debates sobre a violência contra as mulheres, a exploração das mulheres e as formas de resistência históricas construídas, tanto de forma individual, quanto coletiva. Essas questões foram sendo colocadas no dia a dia dos trabalhos desenvolvidos e começaram a deixar de ser apenas desafios e passaram a ser uma nova abordagem sobre o que representava para nós a noção da infância e a relação das mulheres com a infância, tanto quando elas são as cuidadoras, quanto são as (mal)cuidadas.

A partir daí iniciamos, de forma mais contundente, a nossa abordagem sobre essa questão e decidimos dialogar politicamente uma percepção sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes. Para nós, as mulheres têm uma vida de exploração, pois elas são desvalorizadas, por causa do sistema patriarcal, em todo o seu processo de vida. Logo, para haver a exploração sexual e a exploração do trabalho doméstico, no modelo que conhecemos, existe um pilar de sustentação que é o lugar da mulher como a cuidadora e disponível sexualmente. Queremos colocar a discussão sobre machismo e patriarcado na pauta da discussão sobre exploração sexual de crianças e adolescentes.

Na formação de contracultura de 2010, mais elementos se apresentaram para nós, o que a maioria das pessoas chamam de Bulling,e que para nós muitas vezes é o racismo, o machismo, a homofobia e lesbofobia e o preconceito de classe. Vimos que o grupo de adolescentes mobilizado nas escolas e instituições de crianças e adolescentes, depois de ser provocado em grupo de reflexão, estava doente. Doenças sociais? Nos, questionamos, mas todas tendo os preconceitos e exclusões como pano de fundo.

Vimos muita carência, necessidade de falar e de ser ouvindo, eles (as) não conversam mais? Ouvimos casos de anorexia,compulsão alimentar, depressão por racismo([1] me sinto um bicho quando acordo e me vejo na sombra da parede, por causa do meu cabelo!) e violência contra as mulheres.E aí vimos que nossas formações políticas devem fortalecer as subjetividades.

Também nos questionamos sobre a forma como as políticas públicas brasileiras normatizam os (as) adolescentes e crianças. Isso é muito delicado no tocante a vivência de uma vida e de uma sexualidade livre e seguras. As políticas têm um parâmetro comportamental, tanto do ponto de vista cultural, quanto social e político, que engessa as possibilidades de manifestação de desejos e vontade, elas não levam em conta as múltiplas subjetividades, pois têm como parâmetro uma lógica heteronormativa, classista, adultocentrica e racista.

A partir dos elementos trazidos na nossa experiência de formação preventiva a violência, pretendemos amadurecer uma metodologia de formação com adolescente e crianças, abordando a exploração sexual a partir de uma crítica radical a uma sociedade patriarcal, capitalista, machista, racista e heteronormativa. Para isso construiremos ações contraculturais feministas tendo como horizonte a defesa irrestrita dos direitos humanos na critica ao machismo e ao adultocentrimo, para nós essas serão sempre ações de enfrentamento a hierarquia e ao individualismo, além disso, é também uma defesa do estado democrático de direitos e das liberdades individuais de todos os sujeitos sociais.

Também temos um desafio secundário que é fazer um balanço mínimo das implicações causadas para autonomia e a liberdade das mulheres e meninas, quando as políticas sociais de reprodução e manutenção da vida não funcionam da forma que deveriam.

A cultura que se construiu no Brasil nega as mulheres e as crianças como sujeitos de direitos, precisando existir, para eles (as), que eram “anteriormente” de propriedade do [2]patriarca, políticas e leis afirmativas tendo como horizonte a igualdade e como forma uma justiça a luz da equidade[3]: tratar os historicamente desiguais de forma diferente.

 É necessário refletir quando se inicia o machismo na sociedade, consciente ou inconscientemente de forma coletiva, e (ou), individual, cada pessoa é, a priori, sujeito ativo ou passivo dessa ação. Essa compreensão contribuirá para que reflitamos de forma mais complexa sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes, o que preconiza, o adultocentrismo ou o machismo? Essa seria uma variação geracional da exploração das mulheres?

Vivemos um momento delicado no que se refere ao machismo e o adultocentrismo. As violências cada vez mais precoces e deflagradas e os contextos sociais, econômicos, culturais e raciais que, aparentemente, exacerbam o individualismo e o conflito não solidário e desrespeitoso entre as pessoas. Crianças e adolescentes cada vez mais freqüentemente protagonizando violências, muitas delas pautadas pelo machismo, o ciúme e a posse, além das mídias, sensacionalista, que estão repletas de casos.

 



[1] Fala de uma adolescente negra em uma roda de diálogo (formação contracultura 2010)

[2]  Aquele de detém o dominium sobre o patrimônio, a mulher e os filhos elucubração do livro O Mito Fundador e a Sociedade Autoritária, 2008.

[3] John Rawls utilitarista que defende a teoria da equidade como questão de justiça.

Juliane Ataíde